Para onde caminha a Odontologia? Estamos seguindo um rumo guiado pelo bom senso e pela ciência, ou estamos nos deixando conduzir pelas fantasias das redes sociais, pelos algoritmos, pelo apelo dos influencers, pela inteligência artificial e pela pressão da indústria? Esses elementos têm impulsionado avanços notáveis, mas também uma crise silenciosa de qualidade e ética.
E por quê chegamos a esse ponto? Porquê a cadeia inteira está adoecida. É sistêmico! O paciente, imerso na cultura do imediatismo, exige o resultado mais rápido possível, mesmo que isso ofereça algum ônus à própria saúde. O profissional, por sua vez, pressionado frequentemente omite informações cruciais, substitui planos de tratamento ideais por alternativas mais lucrativas e abandona a abordagem multidisciplinar essencial. Implantes precedem a Ortodontia. Lentes de contato precedem o tratamento periodontal. Aparelhos ortodônticos, a adequação bucal. Vivemos a era dos apressados e gananciosos.
Ao mesmo tempo, prolifera uma geração de profissionais que “estudam” pelas redes sociais, reproduzindo técnicas, materiais e protocolos que sequer foram testados e publicados no periódico da esquina, quanto mais em revistas científicas sérias, revisadas por pares. Soma-se a isso a dependência crescente de ferramentas de inteligência artificial como ChatGPT, Claude ou Gemini na tentativa de diagnosticar, planejar e decidir condutas. São recursos úteis, sim, mas ainda alucinam mais do que ajudaria um estudante de graduação atento.
No fim, esquecemos o que nunca deveria ter sido negociado: o conhecimento clínico precisa ser construído sobre bases sólidas, com formação contínua, senso crítico e, sobretudo, uma ponte permanente entre a pesquisa científica e o nosso consultório.
Se esse elo se rompe, ou se deixamos que ele se deteriore, resta uma pergunta inevitável: para onde realmente está indo a Odontologia?
Prof. Dr. Lucas Cardinal